Nos últimos anos, a conversa sobre pessoas trans senta-se à mesa, mas as pessoas trans não. O tema surge em todas as esferas do espaço público sem que se veja nem que se ouça, de facto, alguém de experiência própria. São criadas narrativas deturpadas, e muitas vezes absurdas, do que é uma pessoa trans e das suas possíveis intenções. Dias como o da Visibilidade Transgénero são importantes neste sentido – humanizar. É necessário personificar o conceito “Trans” para a população geral.
É necessário perceber a dimensão desta comunidade, que influência tem e que intenções possui. A verdade é que representa menos de 1% da população portuguesa, entre 2018 e 2024, em 6 anos, 3300 pessoas mudaram o nome e género no registo civil.
Questiono-me se os recursos públicos gastos em discussões parlamentares constantes sobre limitar a liberdade e dificultar o acesso à autodeterminação das pessoas trans se justifica.
A nossa existência é explorada em todos os campos dos media: seja através de notícias sensacionalistas e desinformadas, artigos de opinião vindos de quem não possui estudos na área, reality shows onde a história do indivíduo é escrutinada à mercê dos produtores sem consentimento prévio, em shows de comédia onde a piada fácil são sempre estereótipos irrealistas de comunidades marginalizadas, séries de televisão onde a imagem da mulher trans é quase sempre representada por um homem de vestido e em muitos outros formatos da esfera pública. Todos os dias ouvimos falar de pessoas trans, mas quando foi a última vez que ouviram uma pessoa trans? É imperativo que se desconstruam preconceitos e narrativas para que se crie um ambiente menos hostil a quem só quer existir.
É curioso que esta avalanche de tempo de antena não parta sequer da vontade nem do controlo de pessoas trans. Não somos nós quem lucra com esta exposição. Somos usados como primeira página sem que nos sejam pagos direitos mínimos. Quem mais instiga são precisamente quem tem motivações mais nefastas e indignas, como partidos mais conservadores ou grupos empresariais de notícias com uma agenda anti LGBTQ. Não são indivíduos trans que iniciam nem que se colocam no centro desta conversa.
Garanto que o que a única intenção que a comunidade trans tem é viver em paz, viver com dignidade e segurança num espaço público que a todos pertence.