Publicado a 13 de maio de 2025, 51 anos depois do primeiro manifesto LGBT+ em Portugal, agora com voz sáfica, lésbica*, feminista interseccional trans inclusiva.
No dia 13 de maio de 1974, ousou-se escrever o indizível: que também os homossexuais tinham direito à liberdade. Que o 25 de Abril não podia excluir quem ama diferente, quem vive fora da norma. Foi o Movimento de Acção Homossexual Revolucionária (MAHR) que assinou o manifesto “Liberdade para as Minorias Sexuais”, publicado no Diário de Lisboa. A ousadia de o tornar público custou caro, com insultos, silenciamentos e, em direto na televisão, a infame resposta do general Galvão de Melo: “O 25 de Abril não se fez para putas e paneleiros.”
Hoje, escrevemos de novo, agora, com a memória de quem não ficou calada. Escrevemos com a voz de Safo, sim, a poeta.
Mas também com a voz do Clube Safo, que nos anos 90 ousou ser um espaço lésbico* autónomo, político, visível. Que criou comunidade, organizou encontros, resistiu à exclusão dupla: por sermos mulheres e por amarmos mulheres.
O mesmo que nos anos 2000, esteve na linha da frente da luta pela igualdade no casamento, pela parentalidade e pela visibilidade sáfica. Participou ativamente na campanha pelo direito à interrupção voluntária da gravidez, lembrando que as lésbicas também engravidam, também abortam, e que o feminismo deve ser para todas. O Safo esteve onde era difícil estar, e não se calou.
Nos anos 2010, quase nos quiseram convencer de que tínhamos desaparecido. O silêncio cresceu, mas a memória não se apagou. O Safo sobreviveu nos arquivos, nos encontros informais, nas conversas de quem procurava referências lésbicas num país que tantas vezes nos quis esquecer.
E agora, nos anos 2020, o Safo regressa. Com novas vozes, novas formas de organizar, novas urgências. Mas com a mesma força de sempre: ninguém fala por nós, falamos por nós mesmas. Honramos essas vozes, e com elas, afirmamos: a revolução também se faz com desejo sáfico.
Dizemos NÃO ao apagamento e à invisibilização aos quais nos tentam sujeitar. E dizemo-lo assim:
As mulheres sáficas existem. Com ou sem rótulo. Com ou sem “homem no meio”. Com amores doces, raivosos, serenos ou caóticos. Existimos e não pedimos desculpa.
As lésbicas* foram sempre parte da revolução, mesmo quando nos deixaram fora da foto. Queremos as nossas vozes nos livros, nos arquivos, nas políticas públicas, na história contada às novas gerações. Queremos educação sexual que fale de nós. Das amizades entre raparigas que eram mais do que isso. Dos silêncios nas salas de aula. Dos beijos escondidos atrás da escola. Da importância de termos nomes para o que sentimos.
Isso inclui as mulheres trans lésbicas*, os homens trans sáficos. Inclui quem se recusa a caber no binário e se identifica com a identidade lésbica*. Ninguém deveria estar só.
As pessoas negras, racializadas, ciganas, migrantes são parte desta sociedade. E as sáficas trans negras estão entre as mais expostas à violência e ao esquecimento. Não há luta feminista queer sem elas no centro.
Queremos um feminismo onde caibamos todas e também o nosso direito à vida plena. Com os nossos corpos, com as suas diversidades funcionais e estéticas, nossos géneros, nas suas múltiplas expressões nossas vivências, mais próximas ou afastadas do ideário branco eurocêntrico, e ainda ricas em dores e prazeres. Com ou sem filhos, com ou sem hormonas, com ou sem “aprovação”.
Este manifesto não é um pedido. É uma afirmação.
Somos herdeiras de Safo, do Clube Safo, de todas as que se organizaram em nome de um amor que não era suposto existir. E estamos vivas. Presentes. Incómodas. Com voz.
O futuro não acontece sozinho. O futuro constrói-se com cada gesto de cuidado entre amigas. Com cada grito nas ruas. Com cada vez que alguém ousa existir por inteiro.
Não nos basta sobreviver. Queremos viver com orgulho. Com prazer. Com raiva justa. Com alegria plena. Queremos festas sem medo. Marchas sem muros. Trabalho com direitos. Amor sem vergonha.
Queremos que todes, todes, saibam: o cravo também é nosso.
Esta revolução pertence-nos, mesmo quando tentam apagá-la do nosso corpo e da nossa história. Este é o nosso manifesto, sáfico, lésbico*, feminista, trans inclusivo, interseccional.
É um grito, uma semente, uma promessa: Ninguém larga a mão de ninguém.