Isto podia ser muito bem um manifesto, um contrato ao qual todas iamos lindamente assinar com maravilhosas rúbricas e assinaturas de nomes que constam ou não no cartão de “cidadão”. Podia ser um testamento, já que muitas de nós estamos mortas, ou pra lá caminhamos. Umas de maneira natural, outras de maneira trágica, a maioria de forma injusta. Mas escapemos ao cliché da teoria queer e de espaços que tentam mobilizar a performance como arte em/de resistência. Podem dançar no nosso funeral depois. Este texto é uma perspectiva transfeminina e transfeminista (mas não só) de uma série de desgraças que se deram nos últimos anos. Não as chamaremos pelo nome. Não são dignas disso. Pagaremos na mesma moeda o sofrimento que nos causaram.
Desde Stonewall, uma grande parte dos gays, das fufas e de outras antigas vítimas da sociedade têm descontado a sua miséria num bode expiatório antigo: as mulheres trans. Desde que nós pessoas queer nos consideramos gente sem algum tipo de vergonha, a mulher trans é quem apanha. Seja ao nos terem expulsado à cacetada de marchas do orgulho, seja nos terem assimilado em comunidades que não correspondiam ao nosso género, ou, mais recentemente, dizerem à boca cheia que não somos parte do que quer que elus sejam. Pois, que seja. Em Portugal, as primeiras de nós a aparecerem na vida pública do ativismo foram brutalmente ignoradas, atacadas, esquecidas, e hoje, continuamos o legado dessas primeiras mulheres trans. Não em conquistas, mas na violência que sofremos.
Qualquer mulher trans que se apresente num espaço ativista, frequentemente é vítima do clássico “set”. Uma tokenização que a torna num porta-chaves duma associação rafeira, uma condescendência que normalmente se pauta pelas frases: “Não te preocupes, nós fazemos por ti”, ou então a frase transmisógina do século: “Há temas mais importantes”. Haverá tema mais importante que a fome que passam as mulheres trans que não tem emprego ou qualquer tipo de apoio ? Haverá tema mais importante que as taxas altíssimas de transtornos alimentares, automutilação e quadros de depressão que a disforia causa ? Ou então, tema mais importante que as taxas apocalipticamente altas de suicídio entre mulheres trans, devido a uma combinação de transmisoginia, transfobia, disforia, falta de oportunidades de emprego, estudo, habitação, etc.?
A opressão das mulheres trans é sempre colocada em último lugar numa longa lista dos “problemas que a esquerda tem de resolver”. Primeiro liberta-se a Palestina, acaba-se o imperialismo e o racismo, liberta-se os trabalhadores do capitalismo, e a seguir podemos pensar nessas. Mesmo nas organizações LGBT e de pessoas trans, a transmisoginia é, no máximo, enfiada no fim dos comunicados numa lista de “ismos”, sem quaisquer consequências para a linha política. Isso, claro, nas poucas vezes em que mencionar especificamente a transmisoginia, e não só a transfobia mais geral, não é imediatamente rotulado como “divisivo” e silenciado.
Ironicamente, é nas raras vezes em que falam sobre o que sofremos que fazem algo ainda pior. Conseguem fazer com que nem o que sofremos seja sobre nós. Quando se fala de banir as mulheres trans dos desportos, de centros de vítimas de violência doméstica e violação e de casas de banho femininas, as últimas pessoas das quais se fala são as mulheres trans. O policiamento e violência que mulheres cis que não se exprimem de forma convencionalmente feminina, ou têm níveis mais altos de testostorona, ou são intersexo, e que homens trans e pessoas transmasculinas sofrem com estas leis é quase sempre o foco principal.
É claro que os transmisóginos querem submeter todas as mulheres, trans e cis, todes ês dissidentes de género, transfeminines e transmasculines, e toda a sociedade em geral, ao patriarcado e ao cissexismo. Se a nossa opressão piora a opressão de outros, é matar dois coelhos com uma só cajadada. Mas as leis claramente mencionam-nos por nome. A imagem propagandística principal da transfobia, a mais presente nas mentes da população em geral, é da mulher trans/pessoa transfeminina como monstro de vestido que quer desvirtuar toda a sociedade e destruír os espaços das mulheres. Isto não é para negar a violência que tantes para além de nós sofrem com estas leis. É mostrar que no centro da transfobia, e por por isso das ansiedades reacionárias sobre o género e sexo em geral, está a transmisoginia. Que o objetivo principal é expulsar-nos a nós, mulheres trans, da vida pública, com efeitos colaterais, desejados mas colaterais, para outros grupos. Mas as principais pessoas a serem ouvidas sobre como estas leis as magoam são mulheres cis, e não nós.
Em geral, as últimas pessoas das quais se fala são mulheres trans. Nos raros momentos em que a esquerda ouve mulheres a falar do patriarcado, ouve mulheres brancas cis. Nos raros momentos em que ouve pessoas racializadas a falar de racismo, ouve homens racializados cis. Nos ainda muito mais raros momentos em que ouve mulheres racializadas sobre a interseção de ambos, que lhes retira a pouca humanidade conferida á Mulher (branca) no sistema binário de género e coloca-as num estatuto ainda mais baixo, ouve mulheres racializadas cis, e não mulheres racializadas trans, que são duplamente desumanizadas e colocadas nesse estatuto, e muitas vezes num ainda mais baixo.
Afinal, parece que o interesse desta gente não é ajudar, ou sequer ouvir, mulheres trans, não querem cumplicidade nenhuma connosco. Querem cozinheiras, querem empregadas domésticas, querem escravas sexuais. Querem mulheres trans que aceitem como “aliades” pessoas que essencialmente dizem “a Lei Matar Todas as Travecas é má porque e se matarem acidentalmente uma pessoa a sério?”, “a propaganda e perseguição contra mulheres trans é feita pelo governo/Capital para distraír dos problemas a sério (das pessoas a sério)”, etc. Que aceitem comentários machistas e assédio de homens de esquerda como um ato virtuoso e até corajoso, porque vêm-nos como mulheres, e porque só alguém muito progressista podia desejar indesejáveis como nós.
E se negamos isto tudo? A nossa “mulheridade” (seja lá o que quer que essa merda signifique, enfim) é revogada. Porque afinal, somos “homens raivosos” porque nos revoltamos contra a injustiça em espaços “tão inclusivos e radicais”, talvez somos “homens misóginos”[1] pela maneira como “exageramos a nossa feminilidade”, ao mesmo tempo somos ” a mulher trans predatória” e “a mulher trans que se põe a jeito ao ‘escolher’ ser mulher”. Somos sectárias, identitárias ou o que seja, porque “há questões mais importantes” como a Palestina, como os “trabalhadores”, ou como qualquer outra pauta do dia. Como se nós não fossemos trabalhadoras, como se não fossemos mulheres, ou como se não houvessem mulheres trans na Palestina ou em outros locais em que o extermínio é a palavra do dia. Há sempre algo maior. Há sempre algo a apontar. Só somos mulheres enquanto dá jeito, e somos só mulheres se mantivermos o trabalho de miséria que já nem é aceitável meter mulheres cis a fazer.
É impossível que combatamos assim. Seja contra a transfobia, seja contra a austeridade, seja contra a violência policial, seja pela Palestina e pelos outros povos colonizados e genocidados do mundo. A culpa que nos fazem carregar por não nos conseguirmos organizar e por não participarmos no “combate às injustiças” só nos faz permanecer nestes espaços até nos cansarmos e sermos descartadas. Chega disto. Acabamos de perder em Portugal o direito à nossa autoidentificação sem passarmos pela máquina fascista do cistema de “SS-áude”, e continuamos a ter de nos martirizar e humilhar frente a estes falses aliades. Já não bastava a instrumentalização dos nossos corpos, já não bastava os chasers em qualquer aplicação de encontros que nos violam, que se vêem no direito de oferecer dinheiro para tentar fazer desaparecer os nossos limites sexuais, já não bastava a violência transfóbica na opressão do trabalho, já não bastava a pouca comunidade que temos, e que ainda assim, decide lutar entre si e abusar de si própria, já não bastava certamente a demora e a dificuldade de conseguir hormonas e outro tratamento “gender-affirming”. Chamam-nos divisivas porque não conseguimos tolerar um espaço que nos violenta e silencia, mas o problema não está connosco. Está na forma como a esquerda vê unidade. Seja ela feminista, comunista, anarquista, etc., a esquerda toma por garantida a unidade como princípio. Mas é sempre uma unidade generalizada e vaga, nunca se questiona que unidade é esta. E no processo, esquece-se um facto crucial: que a nossa sociedade já está unida, unida em oprimir, em cometer vários genocídios dentro e fora das nossas fronteiras, um dos quais é o genocídio contra as pessoas trans. O genocídio contra nós é o epítome da unidade, liderado por uma frente ampla que incluí feministas radicais, conservadores anti-aborto, gays, lésbicas e bisexuais transfóbicos, apoiantes da terapia de conversão contra esses mesmos LGBs, membros de quase todos os partidos políticos da esquerda á direita, etc.
Claramente já há unidade, mas não a que queremos. E a unidade que a esquerda finge ser “revolucionária” assemelha-se bastante á da sociedade em que vivemos. Nunca é quem perpetua cultura de abuso e violação, transmisoginia, racismo, etc. que é denunciade como “dividindo o movimento”, apesar de, como diz um excelente texto, misóginos fazerem excelentes informantes, e cumprirem o mesmo propósito disruptivo mesmo quando não estão ao serviço do estado. Tentar fazer com que hajam consequências para abuso é considerado “punitivista” e “carceral”, apesar do facto de que os tribunais e prisões nunca perseguirem abusadores: absolvê-los é que é carceral, porque é o que os tribunais e as prisões fazem na nossa sociedade.
Acabou. Temos de acabar com isto à marretada, e começa connosco. Temos de reconhecer como algo positivo o êxodo de tantas mulheres trans para fora das organizações de esquerda. É sinal que já não conseguimos nem queremos tolerar, não só esta sociedade, como também os que fingem lutar contra ela mas reproduzem a sua opressão. Mas isto não chega: normalmente quando homens saem de uma organização passam a militar em outras, enquanto as pessoas mais oprimidas, que sofrem tanto mais nessas organizações e já têm tanto com que lidar na sua vida, muitas vezes nunca mais se organizam.
Contra isto, é preciso saírmos, mas em direção das nossas irmãs, e não as deixarmos passar fome, frio, solidão, ou qualquer outra desgraça que hoje em dia é “ignorável.”. Temos de, por improviso e na base do que já fazemos para sobreviver, criar redes, formais ou informais, em que nos ensinamos umas ás outras autodefesa, partilharmos recursos de tratamento hormonal DIY, em que garantimos alimentação, habitação e comunidade na melhor das nossas capacidades. Temos de tornar o nosso êxodo em organização política.
Para isto, é preciso nomearmos e analisarmos melhor a contradição da transmisoginia. Tantas de nós nem conseguem entender o que sofrem como transmisoginia, e mesmo as de nós que dão esse nome á opressão ainda não têm as palavras para a descrever completamente. É natural: tudo até agora, na nossa sociedade e no “movimento”, somos impedidas de coletivamente analisar a nossa opressão específica.
Nos anos 60 e 70, a luta de libertação das mulheres em geral [2] defrontava-se com o mesmo paradigma de inconsciência ou consciência individual, isolada e por isso incompleta da misoginia em si em que nós mulheres trans nos encontramos face á transmisoginia. Na luta por uma análise total da misoginia, surgiu o consciousness-raising, a prática de ouvir e falar de instâncias individuais de violência e silenciamento, construíndo a partir delas uma noção coletiva do que se repete em, e assim une, todas essas instâncias. Porque surgiu para combater o mesmo paradigma com que hoje nos defrontamos, acreditamos que a criação de grupos de consciousness-raising entre nós é um passo necessário para criar uma análise e movimento verdadeiramente transfeminista. Foi a partir dessa mesma prática que feministas negras desenvolveram a noção de interseccionalidade, analisando a opressão das mulheres negras como uma intersecção de misoginia e racismo que era mais que a soma das suas partes, contra entendimentos truncados que levavam á subordinação a movimentos feministas dominados por mulheres brancas ou movimentos negros liderados por homens negros. A nossa experiência, de subordinação a movimentos feministas muitas vezes cis-cêntricos e cissexistas e/ou a movimentos por pessoas trans em geral muitas vezes transmisóginos não é a mesma, mas é similar, e temos um caminho muito similar a percorrer se queremos entender a transmisoginia como uma intersecção que é mais que a soma das suas partes. Com isto, não queremos dizer que não devem existir movimentos feministas de todas as mulheres e trans de todas as pessoas trans. Pelo contrário, analisar a nossa opressão específica e derivar dela a nossa própria autonomia revolucionária [3] é o maior contributo que podemos dar á luta pela libertação de todas as mulheres e de todas as pessoas trans. É a melhor forma de realmente estarmos na luta contra o imperialismo, o racismo, a misoginia, a transfobia e o capitalismo, por libertação
total, porque é a única forma de construír laços de cumplicidade mútua, dos quais todas as lutas de libertação precisam muito mais que “aliados”.
E isto é só o começo do longo caminho que temos para percorrer. Saímos das várias organizações que dizem lutar pela libertação porque não identificavam a transmisoginia como uma contradição a sério: estamos a começar a perceber que, como dizia Safiya Bukhari [4], no ‘movimento’ “ainda não identificámos as verdadeiras contradições”. Que “talvez a verdadeira contradição é que não estamos
realmente aqui pela mesma coisa, que não temos realmente os mesmos objetivos, e alguns de nós não querem admiti-lo” [5]. No processo de identificarmos a contradição que é a transmisoginia, vamos descobrir que, mesmo entre nós, pessoas transfemininas afetadas por ela, “não estamos aqui pela mesma pela mesma coisa”. Que muitas de nós vão querer aceitação em troca de abandonarem as suas irmãs e aliarem-se ao imperialismo e á supremacia branca; que muitas estão aqui para controlar e abusar outras. Nunca podemos tomar unidade como garantida: temos de querer uma vida sem opressão, e quebrarmos, seja qual for o preço, com qualquer pessoa que queira beneficiar com qualquer forma dela.
Temos um longo caminho para percorrer. Até agora, percorremos falsos caminhos que parecem ser atalhos, pela urgência e desespero de viver num mundo que nos quer mortas. Mas eles levam-nos sempre de volta para onde começámos, á estaca zero. A realidade é que não há atalhos, e mais vale começar agora a procura longa e árdua de um caminho, também ele longo e árduo, para a libertação.
É bom estarmos desiludidas, é sinal que ilusões estão cada vez mais intoleráveis para nós. Temos de transformar a desilusão em arma, transformá-la num reconhecimento claro das nossas tarefas, do nosso papel na libertação nossa e de todes.
Com raiva e amor revolucionário,
Umas anónimas
[1] É importante lembrar que podem insinuar que somos homens ou chamar-nos homens, mas nunca realmente estão-nos a ver como homens. Se nos vissem como homens estariam a respeitar-nos e a ouvir-nos: na esquerda masculina, e mesmo nos espaços feministas e ainda mais nos TERFs, os homens não são propriamente desrespeitados. É só que, no sistema binário, a única maneira de excluír mulheres da mulheridade é ao chamá-las homens. Na realidade, não somos empurradas para a categoria de homem, mas sim para um estatuto abaixo do binário de género, vistas como monstros, ou em geral como objetos que nem merecem o pouco respeito dado ás mulheres no patriarcado.
[2] Este “geral” era na realidade, e especialmente na liderança, maioritariamente mulheres cis e brancas. Mesmo assim, podemos e devemos retirar lições sobre o que fazer e não fazer do movimento pela libertação das mulheres dos anos 60 e 70.
[3] Com isto não queremos dizer necessariamente uma organização só nossa, separatista: a autonomia pode tomar muitas formas, formais ou informais. Uma organização que reconhece a transmisoginia, e que aceita que pessoas afetadas por ela podem fazer eventos só seus, devem liderar os esforços para a analisar e combater, e têm o direito a saírem ou coletivamente denunciarem transmisoginia, é uma organização onde há autonomia revolucionárias das pessoas transfemininas, as pessoas afetadas pela transmisoginia.
[4] Revolucionária que lutou pela libertação da nação negra nos “eua”, no Partido Pantera Negra, no Exército de Libertação Negra e na República de Nova Áfrika. Mais tarde, depois de ter sido libertada das prisões amerikanas, fundou o Movimento Jericho para apoiar presos políticos em geral, e especialmente presos de guerra negros, e a Coligação para Libertar Mumia Abu-Jamal.
[5] Safiya Bukhari, “Enemies and Friends: Resolving Contradictions“