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Sobre a exclusão de mulheres trans pela Federação Mundial de Xadrez (FIDE)

A Federação Mundial de Xadrez (FIDE) baniu a participação de mulheres trans em competições femininas, isto foi comunicado pela FIDE e um número crescente de pedidos de jogadoras que se identificam como transgénero tem chegado às federações membro deste organismo. A posição deste órgão é que a participação de mulheres trans em eventos dependeria de uma análise caso a caso.

“No caso do género ter sido alterado de um jogador masculino para uma jogadora feminina, essa pessoa não tem o direito de participar em eventos oficiais da FIDE para mulheres até que outra decisão da FIDE seja tomada”.

Acrescentam também que jogadoras com títulos femininos que tenham transacionado para homem veriam os seus títulos “abolidos”. No entanto, a FIDE acrescentou que poderia restituir esses títulos se “essa pessoa voltasse a mudar o seu género para mulher”. A FIDE alega ainda que qualquer alteração de género teria “um impacto significativo” no estatuto de qualquer jogador e futura elegibilidade para torneios, e uma “prova” de transição seria necessária.

É por isso importante perceber as razões alegadas por detrás deste posicionamento: pode alguma pessoa alegar que um cérebro AMAB* (de uma pessoa a que o género assignado à nascença é masculino) é inerentemente mais inteligente que um cérebro AFAB* (de uma pessoa que o género assignado à nascença é feminino)?

O Xadrez é um jogo de estratégia jogado com o cérebro, não fazendo sentido existir sequer uma competição separada por género?

Estatisticamente homens têm tido melhores resultados do que mulheres, em xadrez, mas não será isto um sinal de como as construções sociais têm reforçado as capacidades de um género sobre outro? Se as mulheres são desencorajadas de jogar xadrez, se então menos mulheres que homens jogam, a hipótese de encontrarem grandes mestres em mulheres é também menor. Da mesma forma, se mantivermos as mulheres numa competição separada, longe das competições ao mais alto nível, elas terão menos hipóteses de evoluírem enquanto jogadoras, o que reforça a ideia de que elas não são tão boas, afinal é a competição que nos leva a melhorar.

Tão recentemente como em 2015, Nigel Short, então vice-presidente da federação mundial de xadrez FIDE, alegou que “os homens estão predispostos a ser melhores jogadores de xadrez que as mulheres”, acrescentando “temos de aceitar isso com graciosidade.” O grande mestre britânico explicou adicionalmente que era claro que os cérebros de homens e mulheres eram diferentes porque ele ajuda a esposa a tirar o carro da garagem e ela tem mais inteligência emocional que ele.

A FIDE parece ainda acreditar que a genética influencia profundamente o género no que toca a xadrez, e a performance do mesmo. Diferenças intrínsecas individuais e construções sociais continuam a não ser consideradas para o jogo. Como poderemos de outra forma justificar a sua mais recente decisão? A sua abordagem da separação dos géneros e a incompreensível e profundamente lamentável decisão sobre mulheres transgéneros não serem permitidas competir nos seus eventos oficiais para mulheres até que haja uma revisão da situação de transição – que pode demorar até dois anos – feita pelos seus responsáveis. Seguramente a FIDE não disse ainda de forma clara qual a vantagem inata que consideram que uma mulher trans terá, e o porquê da sua participação não ser acolhida.

Já houve, claro está, várias defesas feitas sobre a decisão da FIDE. Mas em vez de se basearem em evidências empíricas, as mesmas parecem ser construídas com base em assunções sexistas e “ciência” no mínimo altamente questionáveis. Debbie Hayton, uma mulher trans que escreve com frequência para publicações conservadoras, escreveu em UnHeard: “é possível que a evolução tenha deixado os homens com uma vantagem inata no xadrez.” Hayton substanciou a sua opinião com uma citação de uma biologista (cisgénero* ou cis*) de Harvard que alega que o ser masculino tem uma vantagem sobre seres femininos em habilidade espacial. O que não é de todo verdade. Enquanto podemos escolher os estudos que mostram que a habilidade masculina é superior, existem também inúmeros estudos recentes que refutam isto. Um estudo de 2020 na Nature Scientific reporta, por exemplo, não ter encontrado qualquer diferença nas habilidades espaciais de homens e mulheres. Qualquer diferença anteriormente encontrada, como sugere a investigação já realizada, deve-se à metodologia inadequada de teste utilizada nestes estudos anteriores.

E claro está que, Nigel Short seguramente já perdeu para uma mulher: Judit Polgar, que já foi considerada a nº 8 do ranking mundial e tem um histórico de vitória contra ele.

Talvez homens como Short estejam tão determinados na separação da competição por género, porque estão preocupados com a sua própria performance. Vamos olhar para tiro com armas de ar comprimido por exemplo, um desporto em que mulheres e homens competem de forma equilibrada. “Esta competição não foi sempre separada por género” disse à ESPN num artigo de 2021, a treinadora de tiro Heinz Reinkemeier. “Nos jogos olímpicos de 1976, a americana Margaret Murdock ganhou a medalha de prata num evento de tiro livre… depois disso os homens decidiram separar a competição por género porque não queriam ser ultrapassados pelas mulheres”

Ora, se não existe qualquer tipo de vantagem que possa ser alegada a nível genético entre um cérebro AMAB e AFAB, e mesmo a nível físico, no caso das mulheres trans, é algo que cada vez mais estudos consideram ser objetivamente falso ao comparar a mulher cis com as mulheres trans com testosterona totalmente bloqueada tudo isto não passa de uma tentativa de tornar as pessoas trans cada vez mais invisíveis, relegando-as para vidas escondidas na periferia da sociedade numa tentativa de as apagar da história, novamente, como já foi tentado inúmeras vezes no passado. Mas como pessoas trans sempre existiram, e não são um segmento da população sobre a qual seja possível concretizar uma limpeza - uma vez que pessoas trans nascem em todas as sociedades, todas as culturas, todas as famílias, em qualquer parte do mundo como uma ocorrência natural da diversidade na natureza - não tem sido possível erradicar pessoas trans e nunca será.

Esta perseguição de mulheres trans no desporto feminino tem sido feita alegando ser uma forma de proteção a mulheres cis, mas na realidade, tem sido um ataque extremamente infundado contra todas as mulheres. Enganosamente retratando-as como o “elo fraco” que necessita de proteção de uma forma estereotipada e sexista, humilhante e redutora das mulheres e das suas capacidades, ignorando por completo o peso de construções sociais arcaicas nas nossas vidas. No caso específico do xadrez, as alegações vão ainda mais longe ao afirmar que o cérebro de uma mulher é de alguma forma geneticamente inferior, demonstrando todo o preconceito inerente a esta tentativa de excluir mulheres trans de uma vida social ativa, mas também contribuindo para estes argumentos chocantes que atacam todas as mulheres.

Apenas como nota, estudos demonstraram que os cérebros de pessoas trans têm uma estrutura cognitiva similar ao género “com o qual nos identificamos” e não ao género assignado à nascença, o que sugere - visto que o cérebro é parte da biologia de qualquer pessoa e é definido no terceiro mês da gestação humana - que pessoas trans já nascem trans e que a nossa identidade de género é, na realidade, o género genético do nosso cérebro. Quando digo que eu não me identifico como uma mulher, eu SOU uma mulher! Isso é na realidade um facto científico.

É importante que todos os desportos sejam para todas as pessoas, cis e trans, mulheres e homens, acessíveis a todas as pessoas, possível, uma forma de estar e viver uma vida plena, visivel, inclusa e feliz.

Citados artigos do The Guardian, Sky News, e artigos da National Library of Medicine e National Center for Biotechnological Information

*AFAB – Assignado género feminino à nascença

*AMAB – Assignado género masculino à nascença

*cisgénero ou cis - Pessoas que se identificam com o género que lhes foi dado à nascença

*transgénero ou trans - Pessoas que não se identificam com o género que lhes foi dado à nascença.

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ENG

The World Chess Federation FIDE bans transgender women from competing in female events, FIDE said it and its member federations have received growing requests from players who identify as transgender, and transgender women taking part in events would depend on a case-by-case analysis.

"In the event that the gender was changed from a male to a female the player has no right to participate in official FIDE events for women until further FIDE's decision is made," FIDE said.

It added that players who held women's titles who transitioned to male would see them "abolished". But FIDE added it would possibly reinstate titles "if the person changes the gender back to a woman". FIDE said that changing genders had "a significant impact" on a player's status and future eligibility to tournaments, and "proof" of transition would be needed.

So, let’s look at the ridiculous reasons behind all this: can any sane person make the claim that AMAB brains are inherently smarter than AFAB brains?

Chess is a game of strategy played with a person’s brain, let that sink in… why oh why is there even separate gender competitions?

Statistically men have fared better in chess than women, but is that not a sign of how cultural construct has reinforced one gender's skills over another? If women are discouraged from playing chess, fewer women will play, and if fewer women will play the chance you will find grand masters in women is less, also if you keep women on a separate competitions, away from the challenges of top tier competition they will also have less chances to evolve as a player and that reinforces that they will not be as good. After all, competition is what drives any of us to improve.

As recently as 2015 Nigel Short, then vice-president of the world chess federation FIDE, claimed that “men are hardwired to be better chess players than women”, adding: “You have to gracefully accept that.” The English grandmaster went on to explain it was clear men and women’s brains are different because he helps his wife get the car out of the garage and she has more emotional intelligence than him.

FIDE still seems to believe that genetics strongly influence gender when it comes to chess, as well as performance. Intrinsic individual differences and social constructs are yet to be taken into account. How else does one explain their recent decision? their approach to separating genders and the incomprehensible and extremely regrettable decision about transgender women not being allowed to compete in its official events for females until a review of the situation – which may take up to two years – is made by its officials. Certainly, FIDE hasn’t made it clear what sort of innate advantage it thinks trans women may have and why their entry would not be embraced.

There have, of course, already been several defenses of FIDE’s decision. But rather than being based on any firm evidence, they seem to be constructed out of sexist assumptions and shaky science. Debbie Hayton, a trans woman who writes frequently for conservative outlets, wrote in UnHerd: “It’s possible that evolution has left men with an innate advantage in chess.” Hayton backed that up with a quote from a (female) Harvard biologist about males having a large advantage over females in spatial ability. But that’s not entirely true. While you can certainly cherrypick lots of studies that show men’s spatial abilities are superior, there are also lots of recent studies that refute this. A 2020 study in Nature Scientific Reports, for example, found no difference between male and female spatial abilities. Any differences previously found, many research suggests, may be down to inadequate testing methodologies.

Of course, Nigel Short has certainly been beaten by a woman: Judit Polgar, who was ranked as high as No 8 in the world, has a winning record against him.

Perhaps men like Short are so keen on a separation of the sexes because they’re worried about their own performance. Look at air rifle shooting, for example, a sport where men and women are evenly matched. “Shooting wasn’t always split by gender,” air rifle coach Heinz Reinkemeier told ESPN in a 2021 article. “In the 1976 Olympics, the American Margaret Murdock won a silver medal in the free shooting event… after that the men decided to split shooting up into men and women because they didn’t like to be overtaken by the girls.”

So, if there is no real advantage that can be claimed of any sort of genetic level between an AMAB and AFAB brain, and even on a physical level in case of trans women also something that more and more studies have found to be objectively untrue when comparing the cis female to the fully testosterone blocked trans women.

This is nothing more than an attempt at making trans people more and more invisible, relegating them to having to live unseen lives on the outskirts of society in an attempt to erase them from history once again as it has been tried in the past. But since trans people have always existed, and they are not someone you can ethnically cleanse because transgender people are born into every society, every culture, any family, everywhere in the world as a natural occurrence of diversity in nature, they have not been able to eradicate them and never will.

This persecution of trans women in women sports has been done claiming to be a means to protect cis women but in reality, it has been an extremely unfounded attack on women by misleadingly reinstating them as the “weak link” in need of protection in a stereotypical sexist demeaning of all women and of their capabilities, ignoring the weight of archaic social constructs.. In the specific case of chess, the claims go even further to claim the woman’s brain is somehow genetically inferior, showing just how biased the attempt to exclude trans women from social life is that these appalling arguments also tear all women down.

Just as a note, studies have shown that the brains of transgender people show a cognitive structure similar to the gender “we identify as” and not the gender assigned at birth, which would suggest, since the brain is a part of any persons biology and is defined in the human third month of gestation that transgender people are already born transgender and that our gender identity is in fact out brains genetic gender. When I say that I don’t identify as a woman, I am a woman! Is in all actuality a scientific fact.

It's important that all sports are possible and accessible to all people, cis and trans, women, men, non-binary, disabled, a way of being and living a full, visible, inclusive and happy life.

Citing articles from The Guardian, Sky News, and articles from the National Library of Medicine, National Center for Biotechnological Information

AFAB – assigned female at birth.

AMAB – assigned male at birth.

Cisgender or cis - A cisgender person is someone whose gender identity corresponds with the sex registered for them at birth; not transgender.

Transgender or trans - A transgender person is someone whose gender identity differs from that typically associated with the sex they were assigned at birth.

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